Dous Sonetos

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I

O Sonho em que vamo-nos embalados
Terá jamais o belo, ideal aspeto
Apetecido; Signo consumado,
Do Bem será jamais pendão dilecto.

Este em que juntos temos palmilhado
Que toda absorvido tem a agreste
E austera existência, muliado
Sonho mau, dei-mo a mim e a ti o deste.

E a tênue, lesta aurora vindo entanto
- Mirífico oriente, pio arrebol,
Célere à agourenta, torpe visão

Descobrir-nos de angústia o ímpio manto,
Em nossas almas há brilhar o sol
D´um venturoso dia - a Redenção!



II

Linda legenda em lesto apoteto
- A solerte progne ária das origens
Do mundo que em súbito, insueto
Cantochão muda-se, em forte vertigem.

Vem comigo, só, e o teu canto trazes
Modulando um delicado treno,
Que é suave e antigo o que fazes
Mesto canto, alma feliz, e ameno.

O gesto mirífico que na lauta
Pauta e divina do eternal engenho
E a fermata thriunphal que alta atroa...

Quando chegas é então que mais se exalta,
Que mais cresce e dilata este ferrenho
Canto e ao meu coração... Elle o atordoa.