Daniel Welbert

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Neste século infame, em que grassa a vulgaridade e a platitude thriunphantes p´lo organismo infecto e morboso da Arte, quanto nos contenta ouvir a dulcíssona melodia destes versos modulada p´la virtuosissíma frauta destes lídimo e authêntico vate. É quanto ouviremos da mais pura e tersa Poesia em nossos desditosos dias.





De "Sikelianos"



I

... Elas banhadas em sal e azul.
Poderiam até romper-me o outono
Com a chuvarada morna de janeiro
Nos campos de outrora. Dançarão-me
A sarabanda da presença e acalmarão
O moloch negro que eu fui num templo quieto.
Meu sangue posto num vasilhame
Tomará o sol sem sacrifício e
Será ouro a correr por entre as
Teias que uma lua languesceu.
Elas nuas e banhadas serão
Todas urânias em meu natal.






II

Aqui as cousas belas do agora. Esta
Verbena que cremo entre as cortinas
num canto da alfombra, bailando
como o enternecido afago entardecido...
Esta noite repleta... Este sonho, o negativo
Duma posse, dum arfar, a nudez e
Tua queda. E até a falta é um inverno
No qual revejo o meu futuro, a
Estranheza dum mistério. Não saber
O que é melhor, Alceu, a paz reconquistada
Da ausência ou o manter-se contemplado
Como uma luz a desmentir a noite
Eternizada no ficante... Alceu, não
sei me decidir por tantas dádivas...





III

Chego a perpetrar a noite. Está aqui
Esta cólera espelhada a qual eu chamo Deus.

... E ainda este universo todo sem meu eu.

Qual beleza vista por meu olho?
Olha-me a quimera igualmente.
Sabedor esta outra parte de mim
Que o mito é degrau no qual
Me recrearei. Olha-me a quimera
E não me desvenda... Sou outra
Cousa igual a um homem.

Chego a perpetrar a noite. Cremo... Alegro-me.





IV

Começarei o último deste antigo
Que não fui: a visitação das
Penumbras, as telhas da melancolia,
Um portar-se como louco
Nos aposentos do declínio. E é
Uma despedida satisfeita. Que é sempre
Uma promessa dum amante: cinismo
E risos falhos. Uma pouca
Tentativa de lirismo. Uma pouca
Demora em ser-me no caminho
Solitário da visitação.





V


Dançaram-me. Eu cingido em verde.
O quarto escuro na presença deste nome.
Atrás havia das imagens as ondas
Que levavam-me ao pai do turbilhão
E eu, desalentado, nada ordenava
À mercê deste lugar. O nome então
Se fez meu nume – esta mulher de
Veste pouca e carne que adentra
Esta parte mais escura aqui por dentro.
Vi até no seu rodopio o sexo acastanhado
Entreaberto e mudo entre as torres
- estas coxas - estes pelos que são
Véus. Dançara o corpo como eixo submetendo
O caos a uma unidade também caos.
Dum extremo ao outro eram gesticulações
Do silêncio numa cor branca num
Fundo escuro. Terpsícore.





VI

Eu tratar-te-ei o fogo por etapas neste canto
Onde as parcas nada vêem, onde a paz é um
Refletir da procela, onde um marinheiro
esposará as ninfas verdes de nereu. Tratar-te-ei
O fogo como outrora a carne de caça, água
Pura do estige, o sal do nosso corpo – o
repasto dos dias de trevas. Eu tratar-te-ei
O fogo, amiga, a revelar silêncios de ouro
ao cultuar a seiva, a putrefação, a palingenisia –
E após, deitados aos afetos das chamas
Os ossos dos nomes, aproximar-me de ti
E celebrar o fogo que nos resta
Ainda em abundância.





VII

“...Sobre o perigo das rochas, cabelos na
tormenta, irás dizer
adeus ao teu enigma.”
- Elýtis



Crepúsculo por dentro dos olhos,
É este o outono que me tem ensolarado
Os anos nos átrios dum instante não acabado.
Ó, a hora albente da clepsidra que quebrarei
Nesta altura de outrora, revelando
Ao negror sua potência. E ficará
Em tudo o meu rumor, as flores partidas,
Mas semeadas num perigo
Para revelar-me o adeus, o desvelar
Enigmas.





VIII

Sonhei infantes numa piscina,
Brincando com destroços de florestas
Pela noite. Eu era uma mulher
Entre elas, elas oferecendo-se
À minha maturidade repleta
De predestinação que não era ali.

Ontem, defronte ao sono, Nereu
Me aparecera, brincando-me no
Som corpos de ninfas, coroas de algas.