O Molequinho(ou A Agonia do Pacheco)

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A lembrança d´este dia inda me acabrunha. O Villela, sabe-se, tem vezo inveterado de fazer audiência a radiodifusão esportiva... nisto ninguém, ou sabe-se nunca d´alguém, jamais meditou: ajuntar à radiodifusão o prestígio moral d´um evento desportivo empresta-lhe alcance perturbador. O Villela mesmo... ind´outro dia esbofeteava o Pacheco co´a promessa nefanda de encomendar-lhe a alma ao Diabo da Gávea. O Pacheco escabelava-se alvinegro. Era um mameluco espadaúdo nascido p´las cales insalubres da Gamboa e fazia vigílias torturadas nas vésperas das decisões. Eu tudo compreenderia se a contenda se deflagrasse no anfitheatro do Maracanã ou em São Januário; concederia mesmo legítimo se o Villela reclamasse p´la superioridade d´algum grêmio, alí, no campo do Pádua - Mas, qual! Nem São Januário, nem o Pádua, aí, fazem de arena. Apenas o radioreceptor, que é a omnipresença dos estádios. O radioreceptor, que faz a realidade moral do jogo, ante o qual o Villela faz o sacrifício do seu orgulho de torcedor. O que deveras me perturba e inquieta é saber do Fernando, que fez-se engenheiro electrônico e que é, senão virtualmente, padre e madre, por certo nutriz do radioreceptor. Senão o criou, ao menos sabe como emendá-lo. É quanto basta para imputar-lhe alguma culpa p´los padecimentos do Pacheco que ora jaz roto e escoriado n´algum catre asseado da Sta. Casa. O Fernando protestou tem culpa alguma. Eu o não acreditei. Mercê d´estes homens é que, não os fazendo novos, ao menos se dão aos velhos radioreceptores inda mais longevidade. Elle replicou-me que era, outrossim, víctima d´essas máchinas terríveis, que oprimia a seu coração co´o syntonizar-lhes a sensibilidade catódica(a expressão é d´elle) para os reptos do Santos que é o broquel de sua paixão desportiva. Redarguiu-me que nutria mesmo sympaticas disposições para co´o Pacheco. Lembrou-me que o Pacheco se beneficiara co´os préstimos solícitos de sua vizinhança pergaminhada. O radioreceptor do Pacheco enfezara n´um mysterioso mutismo catiônico(a expressão é minha) e foi a ladinice electrotéchnica do Fernando que o salvou. O Pacheco desesperava co´a contumácia escangalhada do seu Phillco 1700 Khz. O Neco ind´outro dia confiava-me que o surpreendera a confabular co´o seu "Molequinho", todo absorvido n´este colóquio, co´o copo d´hidromel a restituir-lhe um átimo de juízo claudicante. Nada sei. O Neco é mascate e na praça XV é que anda a se extenuar. Interessa-o menos o que se diz que o dizer-se algo apenas. O que sei é que o Pacheco contraiu núpcias co´o " Rádio " tão logo o adquiriu, e se não o viu por três longos e dilatados meses ´té se resfriasse o " Molequinho " co´o sereno dos programas vespertinos. É então que o coadjuvava o Fernando co´a solicitude vicinal de sua scientífica amabilidade.

O Fernando ia a casa do Pacheco co´os mesmos escrúpulos attendidos d´um pediatra que longas e ansiadas horas acariciaram. Encontrava-o hirto, pálido, a balbuciar cousas ininteligíveis junto ao batente escoriado. Estreitava suas longas mãos escaveiradas co´a reserva d´um homem que saudasse a um alienado. O Pacheco, então, olhos esgazeados, máscara pálida e desarticulada, macrobiótico, o introduzia p´la intimidade aboletada de seu modesto e simples " Pallazzo ". Lá-dentro, no muro oposto ao batente, que cerrava-se ruidoso, sobre a nulidade retangular d´uma secretária avozinha, comprada a indiferença sorna d´algum sovina belchior do Rio Comprido, estava o seu querido " Molequinho ". Repoisava, alí, a insignificância decorativa de seu esteticismo industrial. Acima aureolava-o o heraldismo galhardo d´um escudo alvinegro com que a camaradagem vadia da repartição presenteara ao Pacheco em seu último natalício. A secretária inda suportava o peso formidando de cem mil quinquilharias no bric-a-brác promíscuo do feiticismo desportivo. O Fernando, repimpado sobre a anchilose trambecante d´um tamborete esfalfado de uso, sob a vigilância maníaca e ansiada do Pacheco, fazia a primeira das muitas intervenções reparadoras para a salvação d´alma catódica do " Molequinho ". O Pacheco, empós a apotheose d´estas ressureições, multiplicava-se em reverências cerimoniosas de humilhado para a comovida expressão de sua gratidão. É verdade que, a prima vez, ofereceu ao Fernando a propina estimada da camaradagem venal. É verdade. Como este recusasse um tão generoso sacrifício, o Pacheco, subjugado e comovido, não pode senão declinar do seu altivo orgulho de funcionário municipal para escabelar-se e caricaturar-se em desprezíveis posturas de redimido. O Fernando despedia-se encalistrado e oprimido com tão despropositadas demonstrações de afecto e gratidão e o Pacheco, o sardonismo alvar a desarticular-lhe a máscara asinina, retirava-se, humílimo, para o grêmio de júbilos das horas athléticas que o seu " Molequinho " entretinha.

O radioreceptor não é algo porque ouvimos falar a alguém . Não! É apenas interlocutor no discurso herteziano da radiodifusão. Tudo se passa como se nos fosse dado ouvir a todo instante o que fulano diz a beltrano desde que este rezasse em alta voz tudo o que ouve e que no transe de ouvir-lhe experimentássemos o êxtase mandrana e vadio de nada dizer. Supomos que fulano está a dizer algo desde que este o diga em alta voz a beltrano. A fulano apenas interessa que beltrano o repita. Ignora que estejamos ouvindo a este. A beltrano apenas importa repetir a fulano. Nada significa para aquelle que estejamos a ouvir-lhe. Apenas: porque tanto tempo temos sacrificado a ouvir beltrano? Era precisamente o que eu perguntava ao Villela. Entendam: não que eu não aprecie, como todos, a radiodifusão, não! Gosto sobretudo dos programas musicais. As sextas syntonizo as transmissões em 800 Mhz para a audição do meu dileto maxixe. Mas isto pouco ou nada infirma ao que ficou dito. O Villela tampouco soube o que replicar a minha pergunta. Não medita estas questões que tem por ociosas. No que estou de acordo. Entanto parece-me irremediavelmente flagrante que tem a radiodifusão escoriado a epiderme empomadada de nossa meã existência. E não tem a chaga inda mais infeccionado porque algum imaginário tem guardado consigo. Isto tentava fazer entender ao Villela antes do infortunado dia em que fez o brutal panásio a cara do Pacheco. Este dizia-me , inda a pouco, que no curso do malfadado episódio o Villela barregava, tonitroante, a enfiada toda dos impropérios graveolentos que se atiram, na Gamboa, no calor das refregas diuturnas. E a par d´isto rogava aos céus que votassem, inclementes, ao tormento infindo dos infernos a alma precita dos detratores da radiodifusão(certo, aí, compreendida a minh´alma infortunada), do seu querido " Rádio ".

Concedo que tudo isto pode ter importância alguma, que o " Rádio " tem pouco ou pretígio algum sobre nossos juízos; que o Villela zurziu co´o Pacheco, este caceteando-o além do que poderia suportar. Concedo!... Que a radiodifusão apenas fez de mechanismo deflagrador das hostilidades que mutuamente nutriam um e outro e que se formaram no calor dos embates " Ludopédicos ", como o quer o Sr. Palmeiras, que pretende distinguir co´o requinte etimológico do helenismo a banalidade athlética do " Foot-Ball ". O termo, tomado de empréstimo ao grego, tem para o Sr. Palmeiras, que figura co´o mérito attendido de sua erudição nas páginas de chrônica desportiva do Jornal do Brasil, a superioridade ática de sua lógica constitutiva e concisão em contraste flagrante co´a vulgaridade saxã do " Foot-Ball " que não compreende senão a synthese metaphórica de " Foot " e " Ball " na unidade semiótica d´um vocábulo híbrido. O Pacheco, certa feita, concedeu que sympatizava co´o acerto etmológico do termo e teceu enthusiásticos elogios a ladinice erudita do velho Palmeiras, chamando-o " Dr. Palmeiras ". Naturalmente o Pacheco ouviu ao " Rádio ", ao seu querido " Molequinho ", a precisa correção do termo helênico que o " Dr. Palmeiras " propalava nas transmissões desportivas da radiodifusora Quissamã. Eis, pois, aí, a perfeita ilustração do que dizia ao Villela: O pobre do Pacheco jamais privou co´o Sr. Palmeiras, jamais! Não tem, pois, a caução escusatória d´esta familiaridade, d´esta distinta colacia, para afiançar-lhe do que lhe disse o seu " Molequinho " apenas. O Pacheco tem suposto, como o supuseram todos quantos syntonizaram ao Sr. Palmeiras, todos quantos fizeram-lhe audiência, ter ouvido a este a delicada exposição de sua subtileza philológica. Ledo engano! Ouviram ao radioreceptor a tal arenga, que não a disse a ninguém, limitando-se a reproduzi-la do que somente lhe disse o radiotransmissor que não falava, ou antes, transmitia senão àquelle. O Pacheco, como todos os ouvintes do Sr. Palmeiras, é senão testemunha anódina da radiodifusão que se tem erguido tal um ídolo sacrílego por entre as ruínas da sociabilidade palavrosa dos homens. O Pacheco... Constrangido a nada dizer, silenciado, atrozmente, p´la loquacidade 60ciclos de seu " Molequinho "... Invitado a testemunhar o trâmite infindo das radiotransmissões, que se sucedem, incessantes, na alternativa intérmina dos " Programas". A enfiada toda das horas ociosas o Pacheco as dispensa ante a seu " Molequinho ", desmemoriado já do que este lhe segredou n´hora pretérita, já indiferente ao que se lhe dirá n´hora vindoura. Os reptos interestaduais do " Foot-Ball ", aí, se transutam no alarido autofalante das partidas: oitavas, quartas, semifinais, etc... O Pacheco, então, se vai azoratando co´as vacilações do espírito timorato de seu querido broquel desportivo. Eis, pois, que se demonstra o acerto do que dizia ao Villela quando arengava que o " Rádio ", guardando inda algum imaginário, participa das lídimas prerrogativas do mytho tal o concebeu o espírito dos séculos. Certo o Villela pouco, ou antes, nada compreendeu. Tudo isto passa mesmo por obscuro e impenetrável para mim. Minhas reservas a propósito da radiodifusão são de ordem intuitiva. O que sei é que este átimo de imaginativa que nos deixa o " Rádio " acena co´a possibilidade sombria de que algum dia a radiodifusão, cumprindo os ditames inexoráveis de seu destino evolutivo, alcance obliterar-nos para sempre a flama candente da ficção imaginativa, convertendo-se, assim, em nossa única realidade, ante a qual, emudecidos e acabrunhados, restar-nos-ia o infausto offício de ressuscitarmos as modalidades defuntas e extintas do real para o flébil gáudio de nossa estéril desolação. A realidade, assim, eliciada do ermo e triste deserto a que a exilamos, converter-se-ia n´uma anódina phantasmagoria, a que nosso pejo, nosso vexame, arremataria co´a visualidade animatográphica d´uma câmara escura... Estas e outras cousas amiúde se me acudiam a vadiagem fatigada das idéias. Eu presto as dissipava co´o piparote fleugmático do tédio, que me concitava a camaradagem pulha do Villela ou a indiferênça peripathética da minhas promenades...

Hoje, pois, ao Villela!...

Eu o encontro hirto e inabalável junto ao batente sórdido do " Mi-Mi ", a insalubre brasserie em que attende a sovina graveolenta do "Patuá". Está o Villela trajando um terno bossudo e cossado de uso cujo asseio claudicante denuncia a miséria que o esmaga e humilha. O seu olhar, adoçado p´la aproximação domingueira do meu vulto, tem esgares de cobiça, assanhada p´la visão do esmero e correcção do meu trajo, comprado a novo à prodigalidade usurária da Rua do Ouvidor. Nos fitamos um instante ´té concordarmo-nos tacitamente co´a partida. Lá, então, fomo-nos, o Villela e eu, rumo a Sta. Casa. À Sta. Casa onde convalescia o Pacheco da legendária sova que lhe deu o Villela. Iamos para fazer-lhe o mimo de uma visita e para levar-lhe o bendito lenitivo do seu " Molequinho ", que haveria de entreter-lhe as horas dolorosas co´o bálsamo das transmissões radiophônicas.