Dias de Chuva

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... A gare toda emudece co´a partida dos comboios. Azul... Toillete olorosa de moça brejeira. Todos a conhecem. Apenas: os gárrulos olhos úvidos, melanópicos, que a elegância “chic”, o maneirismo utilitário ensombreceu. Dias de chuva. Esta é muito bombástica... Exige demasiada fé. Hoje: um número ínfimo... Não é, pois, uma questão de credulidade apenas. Daí concluo: carecemos, sobretudo, o gozo. Basta!
Ela tem invulgar beleza e gracilidade... Deixa-nos em leve e suave somno admirativo. ”Consoadas e guloseimas!... Balas! Balas!...”.
Ele olhou-me solícito, servil. Curvei-me, perscrutando-lhe o alforje pando co´a zamburrada, atestado co´a tuia de cacaréus. “Balas!”, não mais o atendi, displicente.
O Maciel sabia-me refractário a taramelice pulha da repartição. O Football... Eu já o adivinhava: Ramos sob a zerbada ululante. Quiçá vendessem amendoins!
“- Não Senhor. O Sr no vagão contíguo os poderá comprar”, retorquiu-me polidamente. “Goma encandilhada!”.
“- Estação Bonsucesso! Estação Bonsucesso!...”, inda o salseiro plorabundo.

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A canícula bonançosa dos estios ardia, rútila e franca, lá-fora. Ele perscrutou, com esgares estudados d´atentiva despiciente, a nudez aboletada do “Wagon”. Cerrou-se o batente, estrugidor, sob o ósculo panthográfico das portas hemioclusivas. Refestelou-se, anchilosado de fadiga, junto à blindagem aluída d´um painel electromecânico. Lá-fora a evidência metereológica inverossímil d´um dia estival, dir-se-ia, primaveril. “E o mascate?”, inquiriu consigo. Ponderou que far-se-ia mascate se lhe sobreviesse a má fortuna. Hesitou no acerto do que deveria chatinar. “Amendoins!”, isto acudia-lhe a retentiva co´a impertinência d´um remorso.
O coro dos escanos, a passo e passo, ocupava-se co´a fadiga repimpada d´alguma cachimônia toscanejante. “Três!”, atalhou, farto de enumerar-lhes inda que mal o houvesse ensaiado. É verdade que, aí, quiçá, se contassem quatro, mesmo dous... Mas não carecia contá-los. Não os contou portanto. Enfezou na convicção inabalável de que, aí, se contavam três apenas. Súbito compreendeu que deixara empós de si um “Wagon” em que se aboletava uma vintena, quiçá uma trintena de gentes que convalesciam das canseiras diuturnas. “É isto!”, atalhou, célere, pondo termo ao runimol de insípidas questões que isto suscitava. Presto uma tosse catarrenta de tísica vibrou no ar o cavernoso cantochão de seu funesto segredo. “Sim, três!”, concluiu afinal. O comboio voraginava os espaços co´a fúria fundibulária de su´alma de hulha. Cada vez estertorava no epileptismo vasquejante, no tetanismo assoberbante que o dínamo aceso das máchinas lhe favorecia. Inda uma vez ele divulgou, lá-fora, uma nesga luminosa dos céus. Meditou: Como se há de isto compreender? Inda a momentos todo se encasmurrava os céus p´lo bulcão arrevesado de basta borrasca e. já, lá está diáphano na transparência azul d´um luminoso dia de estio. Ocorreu-lhe que muito o gostaria conhecer os mysteriosos desígnios que presidem a alternativa dos dias estivais p´la enfiada toda dos dias tempestuosos. Um mystério... e outro mystério.
Esperava p´lo machatin das consoadas que se compram a vinténs p´lo comboio. O seu amendoim...Pensou que isto lhe fosse um estranho e estrídulo estribilho a ecoar, monótono, p´las estrophes da viagem que entretinha. Compôs a ode:

Fuma, celerígrado, o comboio
No transe obstinado de se ir.
5:15 h. no gare do Arroio
A gente toda a ir e vir.

Amendoins!
Foge-lhe o verso, escapa-lhe a rima. A tosse reboou raucíssona como um presságio mau. Ele a ouvia clara e distinta, mas não saberia dizer d´onde ao certo procedia, qual, dentre os infelizes que, aí, toscanejavam, a levava hético. Dissipou a sombra d´esta tola arenga para notar, e supunha fazê-lo p´la prima vez, o polícromo zingamocho que, ledo, lhe sorria à rotação tresvariada de suas pétalas zonadas. Ele estava suspenso no fundo do “Wagon” e sua umbrátil presença fôra diligentemente galivada p´la alacridade rutilante da lux estival. Ficou fascinado! Sumariou as razões porque a alguém ocorreria a idéia de, ali, fixar e deixar, a admiração palerma dos ranchos escadelecentes, o mimo versicolor d´uma tão bonita ventarola. Quis erguer-se para o ir divisar com minúcia e atilamento. Mas lhe não pareceu pertinente. Alvitrou que isto muito se afiguraria burlesco aos anônymos passageiros que, aí, escarranchavam-se exaustos. Sua discrição mesma, a contenção característica do seu ser se lhe antolhava pertinaz.

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“- Estação Bonsucesso!... Estação Bonsucesso!”, alardeou inda uma vez o bilheteiro co´a fleugma madrana de sua atilada idoneidade.
Ele nada podia arrazoar. Duas estações deixara empós a partida na de Bonsucesso! Quis certificar-se. Perscrutou a plataforma atinando co´o reclamo flagrante que o jirau, aí, ostentava: “Estação Bonsucesso”. Estava convencido. Mas onde o ajuntamento palavroso dos ranchos na expectativa das partidas? Onde a fauna exótica dos petizes engraxates? Onde o tropel dos mascates, bufarinhentos e aparelhados para o repto diurnal da existência?
Ele nada podia arrazoar. Se não podia dissuadir da evidência irrecusável que, ubíquo, o reclamo alardeava, não! Todavia podia tampouco se esquivar a flagrante estupefacção em que se abismava. Quis certificar-se da progne claridade que sabia agora esplender lá-fora: Ei-la que, lá, estava. Hesitava quanto ao modo porque se houvesse neste momento. A presença dos outros passageiros o intimidava e o chamava a razão. Receava afigurar-se-lhes tolo, interpelando-os co´a sua impertinência. Turbou-se co´o assombro em que estatelaram as cousas como que hipostasiadas de sua ordinária nugacidade. Confabulou consigo no asserto solerte de, não obstante a maçada dos dias infindos, haver-se-lhes co´a sensaboria. Ele apenas agora o adivinhava. E ponderava: “Quiçá nós, os homens, arrematamos a therapêutica dos sustos e constrangimentos co´a disciplina fascinadora da réles existência...” Mesmo esta ilação, com que atalhou a arribação penipotente das idéias, pareceu-lhe fora de seus gonzos consuetos. Sacudiu os últimos andrajos d´esta vã cerebração para atender ao imprevisto do zingamocho que seu olhar perscrutador de novo assestara.

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Colimou co´a atentiva ancípte na fuga trambecante das paralelas que os escanos prolongavam ´té o fundo do “Wagon”. Dous. “Dous?”... Olhou em derredor de si. Estava inquirindo os espaços, demandando a presença d´alguém. Atinou co´o zingamocho: o ponto de fuga. Ei-lo, estático, já. Presto ergueu-se do chão. A pouco e pouco se lhe ia esclarecendo o assombro a que sucumbira. O seu olhar atônito inda a pouco fitava, maníaco, a paleta delirante do gira-vento na gênese phenomenal de todos os desvarios da cor. O seu espírito estesíaco resfriara-se no parvo estremecimento admirativo dos que testemunham um prodígio. Súbito o zingamocho a mais e mais revoluteava na vesânia tresvariante de seu fuso, pressago, sinistro no alarido estrugidor d´uma vertiginosa aceleração. Ele inquiria da proverbial impassibilidade em que enfezaram, lorpas, nos escanos calafetados do coro, os quatro... “-Quatro!”, consigo contava, impotente para o preciso acerto enumerativo. O zingamocho, então, estalou n´um piparote versicolorido de fosfenos luciluzentes e senóides de harmonias cavas e soturnas. Cem mil miríades d´astros rutilantes turbilhonavam, parabólicos, n´anthese circinada d´outras tantas miríades de zingamochos errinos, estornicando inda mais falanges d´outros gira-ventos belizes, rodopiantes, em catadupas vertiginosas, em aludes adejantes, assomando p´la abcisa helicoidal do seu embevecimento... Foi então que o atirou ao chão o avanço implacável do nuvrejão tempestuoso dos zingamochos e d´onde apenas agora emergia, aturdido, no bonançoso recalmão das borrascas transitórias e contingentes.
Sim! Apenas agora se lhe ia esclarecendo e galivando o que se lhe havia adergado...

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Não obstante a impertinência de sua polidez lhe não respondia o homem.
Ele havia thiranizado no aresto irrevogável de lhes falar, aos três. “-Três!”, interjectava. Agora tudo lhe parecia demasiado inverossímil. Julgou que, posto não se havia inda detido na consciente operação de os enumerar, a seus companheiros de viagem, afigurava-se-lhe indeterminado o seu número, variável, mesmo indecidível. Consultou-o de novo: “-Sim, três!”.
Não obstante a impertinência de sua polidez lhe não respondia o homem.
Compreendia, já, que estiveram todo o tempo submersos em suave e silente modorra, que nada viram e que mesmo a alternativa anphigúrica em que se metamorphoseava o dia por sobre nossas cabeças lhes era indiferente. Havia-lhe de responder: “-Não!... Queira perdoar-me, cavalheiro. Receio que nada tenha visto”. “... porque dormia, sim, obrigado!”, atalhou consigo. Perscrutou, com vagar, o assento em que se repimpava o segundo passageiro, este guardando melhores cuidados no asseio domingueiro de seu vistoso fato cosido a novo. Inda a pouco o vira escadelescendo em imperturbável somno e, já, vigilante e esperto n´ocelação contemplativa do zingamocho. Ele não o havia atinado. O gira-vento agora bafejava o hálito ebrifestivo de su´alma solerte p´la máscara de sorrisos d´aquele homem. Quiçá ele o houvesse colhido ao muro do comboio. Pouco importa. Ele o possuía, o contemplava, absorto e enlevado.
“- Tu vês a luz?”, inquiriu-o o homem.
Ele repelia de si, co´o laconismo acerbo de seu renuído, a intimidade com que aquele homem o constrangia a responder. Decerto vira, a pouco, o panapaná feérico em que se convertera a circunferência polícroma do zingamocho. Estatelara-se d´assombro co´a ter encontrado, empós tê-la deixado, estação de Bonsucesso. Sim! Mas via luz alguma vertendo-se do gira-vento. O homem neste momento submergia no sonho nematóide de su´alma embevecida. Ele todo absorvia-se no alumbramento fascinador que sua imaginativa escandescida supunha olor. O gira-vento debuxava-se, neorâmico, p´la elíptica circinada de seu embevecimento. Era a alma d´uma flor dos trópicos, a negacidade proterva d´uma abstração do Belo. Ele turbou-se co´a sýnthese diorâmica que aquele homem parecia estresir mesmo ao existir phenomênico do zingamocho. Encalistrado, tornou ao assento em que ´té a momentos estivera a iluminar o nastro animathográphico das nugacidades diuturnas. A um gesto thaumatúrgico de seu espírito fatigado toda a sensaboria dos episódios ordinários em que declinara, ablativo, o seu existir, desenovelava-se incontinente da meada obscura das amentações: “Minha esposa, Sérgio... Ela sobre o desalinho amimalhante do tálamo. Um quadro de Veermer... A sýnthese das cores... É isto! As dissensões de escola... Ele tem razão: são instinctos perversos que os agitam e averrumam. Sentença, período... o real é a metháphora do olhar... quiçá mo compreendessem... Sócrates fluminense. Uns comediantes... a gare toda emudece co´a partida dos comboios. Azul... Toillete olorosa de moça brejeira. Todos a conhecem. Apenas: os gárrulos olhos úvidos, melanópicos, que a elegância” chic “, o maneirismo utilitário ensombreceu. Dias de chuva. Esta é muito bombástica... Exige demasiada fé. Hoje: um número ínfimo... Não é, pois, uma questão de credulidade apenas. Daí concluo: carecemos, sobretudo, o gozo. Basta!
Ela tem invulgar beleza e gracilidade... Deixa-nos em leve e suave somno admirativo. ”Consoadas e guloseimas!... Balas! Balas!...”.
Ele olhou-me solícito, servil. Curvei-me, perscrutando-lhe o alforje pando co´a zamburrada, atestado co´a tuia de cacaréus. “Balas!”, não mais o atendi, displicente.
O Maciel sabia-me refractário a taramelice pulha da repartição. O Football... Eu já o adivinhava: Ramos sob a zerbada ululante. Quiçá vendessem amendoins!
“- Não Senhor O Sr no vagão contíguo os poderá comprar”, retorquiu-me polidamente. “Goma encandilhada!”.
“- Estação Bonsucesso! Estação Bonsucesso!...”, inda o salseiro plorabundo.
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2 comments

Nelson 12 de novembro de 2007 05:48

Me ha llamado mucho la atención, la inesperada supervivencia del vanguardismo estridentista que se da en esta bella página.
Es más, creo que aquí hay mucha más poesía que la que alcanzaban Maples Arce y sus seguidores.
Agradezco la invitación para conocer esta página, y extiendo la oferta de amistad a su apreciado autor

Ubi Pater Sum, Ibi Patria 4 de novembro de 2008 13:01

"Compreendia, já, que estiveram todo o tempo submersos em suave e silente modorra, que nada viram e que mesmo a alternativa anphigúrica em que se metamorphoseava o dia por sobre nossas cabeças lhes era indiferente."

Wagner,
visitei o blog. Você se retira para regiões da linguagem bem arcaicas, que em mim evocaram a tradução da Ilíada de Odorico Mendes:

Canta, ó Musa, o varão que astucioso, Rasa Ílion santa, errou de clima em clima


Vicente Franz Cecim é jornalista e escritor. Nasceu em Belém do Pará, Brasil, na Amazônia. Há 25 anos, desde 1979, deu início à criação do não-livro Viagem a Andara, o livro invisível que vai se fazendo dos livros visíveis de Andara que escreve. Andara é região-metáfora da vida, em que o autor transfigura sua Amazônia natal. Sob o título abrangente acima citado, já foram publicados, em diversos volumes: A asa e a serpente/Os animais da terra/Os jardins e a noite/Terra da sombra e do não/Diante de ti só verás o Atlântico/O sereno/As armas submersas (reunidos em volume único (Iluminuras, 1988, São Paulo), com o título Viagem a Andara, o livro invisível e agraciado com o Grande Prêmio da Crítica da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte)/Contando estas histórias para nada/Silencioso como o Paraíso após a expulsão das criaturas humanas/Contando estas histórias para ninguém/Diálogo dos comediantes (reunidos em volume único (Iluminuras, 1994, São Paulo), com o título Silencioso como o Paraíso)/Ó Serdespanto/Música do sangue das estrelas (em volume único (Íman Edições, 2001, Portugal), com o título Ó Serdespanto). Em novas edições (Cejup, 2004) lançou os volumes A asa e a serpente e Terra da sombra e do não, o primeiro contendo os 3 primeiros livros visíveis de Andara e o segundo os 4 livros escritos que a eles se seguiram, em versões finais, revistas e transcriadas pelo autor.

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