O Molequinho(ou A Agonia do Pacheco)

2 comments

A lembrança d´este dia inda me acabrunha. O Villela, sabe-se, tem vezo inveterado de fazer audiência a radiodifusão esportiva... nisto ninguém, ou sabe-se nunca d´alguém, jamais meditou: ajuntar à radiodifusão o prestígio moral d´um evento desportivo empresta-lhe alcance perturbador. O Villela mesmo... ind´outro dia esbofeteava o Pacheco co´a promessa nefanda de encomendar-lhe a alma ao Diabo da Gávea. O Pacheco escabelava-se alvinegro. Era um mameluco espadaúdo nascido p´las cales insalubres da Gamboa e fazia vigílias torturadas nas vésperas das decisões. Eu tudo compreenderia se a contenda se deflagrasse no anfitheatro do Maracanã ou em São Januário; concederia mesmo legítimo se o Villela reclamasse p´la superioridade d´algum grêmio, alí, no campo do Pádua - Mas, qual! Nem São Januário, nem o Pádua, aí, fazem de arena. Apenas o radioreceptor, que é a omnipresença dos estádios. O radioreceptor, que faz a realidade moral do jogo, ante o qual o Villela faz o sacrifício do seu orgulho de torcedor. O que deveras me perturba e inquieta é saber do Fernando, que fez-se engenheiro electrônico e que é, senão virtualmente, padre e madre, por certo nutriz do radioreceptor. Senão o criou, ao menos sabe como emendá-lo. É quanto basta para imputar-lhe alguma culpa p´los padecimentos do Pacheco que ora jaz roto e escoriado n´algum catre asseado da Sta. Casa. O Fernando protestou tem culpa alguma. Eu o não acreditei. Mercê d´estes homens é que, não os fazendo novos, ao menos se dão aos velhos radioreceptores inda mais longevidade. Elle replicou-me que era, outrossim, víctima d´essas máchinas terríveis, que oprimia a seu coração co´o syntonizar-lhes a sensibilidade catódica(a expressão é d´elle) para os reptos do Santos que é o broquel de sua paixão desportiva. Redarguiu-me que nutria mesmo sympaticas disposições para co´o Pacheco. Lembrou-me que o Pacheco se beneficiara co´os préstimos solícitos de sua vizinhança pergaminhada. O radioreceptor do Pacheco enfezara n´um mysterioso mutismo catiônico(a expressão é minha) e foi a ladinice electrotéchnica do Fernando que o salvou. O Pacheco desesperava co´a contumácia escangalhada do seu Phillco 1700 Khz. O Neco ind´outro dia confiava-me que o surpreendera a confabular co´o seu "Molequinho", todo absorvido n´este colóquio, co´o copo d´hidromel a restituir-lhe um átimo de juízo claudicante. Nada sei. O Neco é mascate e na praça XV é que anda a se extenuar. Interessa-o menos o que se diz que o dizer-se algo apenas. O que sei é que o Pacheco contraiu núpcias co´o " Rádio " tão logo o adquiriu, e se não o viu por três longos e dilatados meses ´té se resfriasse o " Molequinho " co´o sereno dos programas vespertinos. É então que o coadjuvava o Fernando co´a solicitude vicinal de sua scientífica amabilidade.

O Fernando ia a casa do Pacheco co´os mesmos escrúpulos attendidos d´um pediatra que longas e ansiadas horas acariciaram. Encontrava-o hirto, pálido, a balbuciar cousas ininteligíveis junto ao batente escoriado. Estreitava suas longas mãos escaveiradas co´a reserva d´um homem que saudasse a um alienado. O Pacheco, então, olhos esgazeados, máscara pálida e desarticulada, macrobiótico, o introduzia p´la intimidade aboletada de seu modesto e simples " Pallazzo ". Lá-dentro, no muro oposto ao batente, que cerrava-se ruidoso, sobre a nulidade retangular d´uma secretária avozinha, comprada a indiferença sorna d´algum sovina belchior do Rio Comprido, estava o seu querido " Molequinho ". Repoisava, alí, a insignificância decorativa de seu esteticismo industrial. Acima aureolava-o o heraldismo galhardo d´um escudo alvinegro com que a camaradagem vadia da repartição presenteara ao Pacheco em seu último natalício. A secretária inda suportava o peso formidando de cem mil quinquilharias no bric-a-brác promíscuo do feiticismo desportivo. O Fernando, repimpado sobre a anchilose trambecante d´um tamborete esfalfado de uso, sob a vigilância maníaca e ansiada do Pacheco, fazia a primeira das muitas intervenções reparadoras para a salvação d´alma catódica do " Molequinho ". O Pacheco, empós a apotheose d´estas ressureições, multiplicava-se em reverências cerimoniosas de humilhado para a comovida expressão de sua gratidão. É verdade que, a prima vez, ofereceu ao Fernando a propina estimada da camaradagem venal. É verdade. Como este recusasse um tão generoso sacrifício, o Pacheco, subjugado e comovido, não pode senão declinar do seu altivo orgulho de funcionário municipal para escabelar-se e caricaturar-se em desprezíveis posturas de redimido. O Fernando despedia-se encalistrado e oprimido com tão despropositadas demonstrações de afecto e gratidão e o Pacheco, o sardonismo alvar a desarticular-lhe a máscara asinina, retirava-se, humílimo, para o grêmio de júbilos das horas athléticas que o seu " Molequinho " entretinha.

O radioreceptor não é algo porque ouvimos falar a alguém . Não! É apenas interlocutor no discurso herteziano da radiodifusão. Tudo se passa como se nos fosse dado ouvir a todo instante o que fulano diz a beltrano desde que este rezasse em alta voz tudo o que ouve e que no transe de ouvir-lhe experimentássemos o êxtase mandrana e vadio de nada dizer. Supomos que fulano está a dizer algo desde que este o diga em alta voz a beltrano. A fulano apenas interessa que beltrano o repita. Ignora que estejamos ouvindo a este. A beltrano apenas importa repetir a fulano. Nada significa para aquelle que estejamos a ouvir-lhe. Apenas: porque tanto tempo temos sacrificado a ouvir beltrano? Era precisamente o que eu perguntava ao Villela. Entendam: não que eu não aprecie, como todos, a radiodifusão, não! Gosto sobretudo dos programas musicais. As sextas syntonizo as transmissões em 800 Mhz para a audição do meu dileto maxixe. Mas isto pouco ou nada infirma ao que ficou dito. O Villela tampouco soube o que replicar a minha pergunta. Não medita estas questões que tem por ociosas. No que estou de acordo. Entanto parece-me irremediavelmente flagrante que tem a radiodifusão escoriado a epiderme empomadada de nossa meã existência. E não tem a chaga inda mais infeccionado porque algum imaginário tem guardado consigo. Isto tentava fazer entender ao Villela antes do infortunado dia em que fez o brutal panásio a cara do Pacheco. Este dizia-me , inda a pouco, que no curso do malfadado episódio o Villela barregava, tonitroante, a enfiada toda dos impropérios graveolentos que se atiram, na Gamboa, no calor das refregas diuturnas. E a par d´isto rogava aos céus que votassem, inclementes, ao tormento infindo dos infernos a alma precita dos detratores da radiodifusão(certo, aí, compreendida a minh´alma infortunada), do seu querido " Rádio ".

Concedo que tudo isto pode ter importância alguma, que o " Rádio " tem pouco ou pretígio algum sobre nossos juízos; que o Villela zurziu co´o Pacheco, este caceteando-o além do que poderia suportar. Concedo!... Que a radiodifusão apenas fez de mechanismo deflagrador das hostilidades que mutuamente nutriam um e outro e que se formaram no calor dos embates " Ludopédicos ", como o quer o Sr. Palmeiras, que pretende distinguir co´o requinte etimológico do helenismo a banalidade athlética do " Foot-Ball ". O termo, tomado de empréstimo ao grego, tem para o Sr. Palmeiras, que figura co´o mérito attendido de sua erudição nas páginas de chrônica desportiva do Jornal do Brasil, a superioridade ática de sua lógica constitutiva e concisão em contraste flagrante co´a vulgaridade saxã do " Foot-Ball " que não compreende senão a synthese metaphórica de " Foot " e " Ball " na unidade semiótica d´um vocábulo híbrido. O Pacheco, certa feita, concedeu que sympatizava co´o acerto etmológico do termo e teceu enthusiásticos elogios a ladinice erudita do velho Palmeiras, chamando-o " Dr. Palmeiras ". Naturalmente o Pacheco ouviu ao " Rádio ", ao seu querido " Molequinho ", a precisa correção do termo helênico que o " Dr. Palmeiras " propalava nas transmissões desportivas da radiodifusora Quissamã. Eis, pois, aí, a perfeita ilustração do que dizia ao Villela: O pobre do Pacheco jamais privou co´o Sr. Palmeiras, jamais! Não tem, pois, a caução escusatória d´esta familiaridade, d´esta distinta colacia, para afiançar-lhe do que lhe disse o seu " Molequinho " apenas. O Pacheco tem suposto, como o supuseram todos quantos syntonizaram ao Sr. Palmeiras, todos quantos fizeram-lhe audiência, ter ouvido a este a delicada exposição de sua subtileza philológica. Ledo engano! Ouviram ao radioreceptor a tal arenga, que não a disse a ninguém, limitando-se a reproduzi-la do que somente lhe disse o radiotransmissor que não falava, ou antes, transmitia senão àquelle. O Pacheco, como todos os ouvintes do Sr. Palmeiras, é senão testemunha anódina da radiodifusão que se tem erguido tal um ídolo sacrílego por entre as ruínas da sociabilidade palavrosa dos homens. O Pacheco... Constrangido a nada dizer, silenciado, atrozmente, p´la loquacidade 60ciclos de seu " Molequinho "... Invitado a testemunhar o trâmite infindo das radiotransmissões, que se sucedem, incessantes, na alternativa intérmina dos " Programas". A enfiada toda das horas ociosas o Pacheco as dispensa ante a seu " Molequinho ", desmemoriado já do que este lhe segredou n´hora pretérita, já indiferente ao que se lhe dirá n´hora vindoura. Os reptos interestaduais do " Foot-Ball ", aí, se transutam no alarido autofalante das partidas: oitavas, quartas, semifinais, etc... O Pacheco, então, se vai azoratando co´as vacilações do espírito timorato de seu querido broquel desportivo. Eis, pois, que se demonstra o acerto do que dizia ao Villela quando arengava que o " Rádio ", guardando inda algum imaginário, participa das lídimas prerrogativas do mytho tal o concebeu o espírito dos séculos. Certo o Villela pouco, ou antes, nada compreendeu. Tudo isto passa mesmo por obscuro e impenetrável para mim. Minhas reservas a propósito da radiodifusão são de ordem intuitiva. O que sei é que este átimo de imaginativa que nos deixa o " Rádio " acena co´a possibilidade sombria de que algum dia a radiodifusão, cumprindo os ditames inexoráveis de seu destino evolutivo, alcance obliterar-nos para sempre a flama candente da ficção imaginativa, convertendo-se, assim, em nossa única realidade, ante a qual, emudecidos e acabrunhados, restar-nos-ia o infausto offício de ressuscitarmos as modalidades defuntas e extintas do real para o flébil gáudio de nossa estéril desolação. A realidade, assim, eliciada do ermo e triste deserto a que a exilamos, converter-se-ia n´uma anódina phantasmagoria, a que nosso pejo, nosso vexame, arremataria co´a visualidade animatográphica d´uma câmara escura... Estas e outras cousas amiúde se me acudiam a vadiagem fatigada das idéias. Eu presto as dissipava co´o piparote fleugmático do tédio, que me concitava a camaradagem pulha do Villela ou a indiferênça peripathética da minhas promenades...

Hoje, pois, ao Villela!...

Eu o encontro hirto e inabalável junto ao batente sórdido do " Mi-Mi ", a insalubre brasserie em que attende a sovina graveolenta do "Patuá". Está o Villela trajando um terno bossudo e cossado de uso cujo asseio claudicante denuncia a miséria que o esmaga e humilha. O seu olhar, adoçado p´la aproximação domingueira do meu vulto, tem esgares de cobiça, assanhada p´la visão do esmero e correcção do meu trajo, comprado a novo à prodigalidade usurária da Rua do Ouvidor. Nos fitamos um instante ´té concordarmo-nos tacitamente co´a partida. Lá, então, fomo-nos, o Villela e eu, rumo a Sta. Casa. À Sta. Casa onde convalescia o Pacheco da legendária sova que lhe deu o Villela. Iamos para fazer-lhe o mimo de uma visita e para levar-lhe o bendito lenitivo do seu " Molequinho ", que haveria de entreter-lhe as horas dolorosas co´o bálsamo das transmissões radiophônicas.





Bucólicas ( III )

3 comments
 Fôra uma revelação!...


 O Bené - miniatura da peraltice insofrida - empós o arietismo dos trampázios porque, ´través a barbacã impérvia da zaragalhada, levara a sua insignificância de 2 ½ covados, assestou do cimo vertiginoso do campanário do Sto. Ambrósio co´o hiálito dos olhos deslumbrados. Lá-cima, adivinhava-se o esplendor coruscante que o colossal alampadário elétrico da paróquia dessorava, alardeando n´uma apoteose de luz, esplendendo n´uma faulação de teopsia; augurando, mesmo prenunciando a glória em que se iam ter os que se demoram no Cachoeiro do Itapoã quando, cá, viesse dar o eletrismo tentaculoso do progresso, deitando o raizame venulado dos fios sobre a acomia argilosa dos arruamentos; dir-se-ia, então, a nubilidade viripotente do progresso aparelhou o glabro Cachoeiro para o himeneu sensualizante da história, para a perpetuidade dos êxitos materiais, para a imortalidade dos louros exornando a fronte ovante da temeridade intimorata... O Bené, entanto, descurava d´estas subtilezas de venturas que se advinham, lá-longe, na esfumatura obliterante das promessas. O seu absorto espírito de infante vivia já no alumbramento fascinador da luz que aquele aparatoso astro rutilante efundia sobre a avernal escuridade do Cachoeiro. Verdade seja que o Nhô Lemos mandara acender almenaras em derredor da praça do Braguinha, mas, como escasseassem os cobres, falhou-se-lhe o altruístico intento aclarador... A luz do alampadário descobria-lhe a afanosa existência d´um mundo que supunha extinto na hecatombe universal dos crepúsculos para empós eclodir, à luz fecundadora da Aurora, na abiogênese fenomenal das criações. Ante seus lucelos esgazeados a enfiada toda dos fenômenos microcósmicos se lhe revelava: a mirmeciana operosidade das formigas, abalando n´uma carreira de prevenção maníaca; a avifauna dos larvíparos, ascendendo no vórtice ebulitivo de basto nuvrejão; a ronda noctívaga d´algum himenóptero erradio, exilado do regimem placentário das colméias, abandonado a inanidade inclemente d´um dia sempiterno... " - Não lograrão mais dormir estes pequenos?... Onde a escuridade salvífica da noute, entremeando o intertíscio trevoso da hora amena p´la azáfama ruidosa do babelismo diuturno?..." O Bené exasperava-se na zetética minuciosa d´este princípio de astronomia inverossímil: " Envelhecer-se jamais na perpetuidade moça d´um dia interminável!... A companhia elétrica trouxera-lhes a perspectiva prometedora da imortalidade na claridade rutilante d´um meio-dia eterno. O Bené, então, abalou para casa a participar a sua onerada mãezinha da prodigiosa nova que, efundindo-se p´la vascularidade cúprica dos fios, lhes prometia o electrismo solaz...


 ...Sorriu-lhe condescendente, estreitando-o n´um amplexo asilador d´indulgência enternecida.

Bucólicas, ( XX )

No comment yet
À Lívia


Eu não sei, Senhora, se o bem que sinto
O dessora tuas delicadas mãos de absintho
Quando me afagas a rude touta escalavrada

Ou se um tal enlevo de graça divinal,
Que nele gozo todo amor e bem e todo mal
Quando à quiba face macerada

Há tocado o alvo fuste adamantino
Dos teus finos, frágeis dedos pequeninos
- Se um tal enlevo de graça divinal

Que te aurela e toda te espiritualiza,
O encanto que aos anjos, lá-alto, diviniza
Dando-te, fazendo-te pulchra flor imortal

D´Amor, tressua d´ulótrica coma olorosa
Como d´exótica corola perfumosa
Quando a desenastras sobre mim.

Bucólicas, ( XXXVIII )

1 comment
Aqui, ante tuas margens cristalinas,
Houvera das plúmbeas horas acres
As que como as d´outrora opalinas
Águas d´uns laivos lassos tocassem.

Há rúbidas rutilâncias algentes
Tremeluzindo fulgor de alabastros...
No Hélicon, dos mármores, dos astros
Fragrâncias de hálitos dolentes.

Contam de ti lendas priscas e várias.
Antes, de ti, que a caudal suave, lenta...
Tinham esplêndidas cores hialinas!

Aqui, ante tuas margens cristalinas,
Ressumbram cores que a aurora inventa,
Ouvem-se cânticos, hosanas e árias.

Bucólicas, ( LVI )

No comment yet


A Infância agita-se ruidosa como um utensílio presto espiritualizado, súbito animado em meio a mole enorme de um mundo fóssil...


Megatério de pinho arreganhando rictus de utilidade pretensiosa na imobilidade paleontológica das mumificações.


A palmatória de prata destila a claridade ancípte do seu medo-pânico de luz, ralhando co´a fixação obstinada de seus olhos deslumbrados, protestando o trágico cepticismo do mobiliário, resistindo a sedução inebriada do seu sonho...

Onde sou uma sombra insomne divagando a tua ausência.

Na Linda Extrema do Parque

No comment yet
A Primavera tem dias longos,
Demorados na tépida indecisão
D´uma hora imensa, incontada,
Perdida na modorra lânguida,
Lenta e preguiçosa do Sol
Que rola, vadio e ébrio de somno,
Sobre a enxerga suja e convoluta
Dos Céus.
Então, cá-embaixo, o vulto amodorrado
Das cousas deixa-se ficar esquecido
N´um ricto de abandono e desolação,
Tangendo a aldrava ferrugenta
Das vésperas
À porta surda e troviscada
D´um Borracho.

Daniel Welbert

No comment yet
Neste século infame, em que grassa a vulgaridade e a platitude thriunphantes p´lo organismo infecto e morboso da Arte, quanto nos contenta ouvir a dulcíssona melodia destes versos modulada p´la virtuosissíma frauta destes lídimo e authêntico vate. É quanto ouviremos da mais pura e tersa Poesia em nossos desditosos dias.





De "Sikelianos"



I

... Elas banhadas em sal e azul.
Poderiam até romper-me o outono
Com a chuvarada morna de janeiro
Nos campos de outrora. Dançarão-me
A sarabanda da presença e acalmarão
O moloch negro que eu fui num templo quieto.
Meu sangue posto num vasilhame
Tomará o sol sem sacrifício e
Será ouro a correr por entre as
Teias que uma lua languesceu.
Elas nuas e banhadas serão
Todas urânias em meu natal.






II

Aqui as cousas belas do agora. Esta
Verbena que cremo entre as cortinas
num canto da alfombra, bailando
como o enternecido afago entardecido...
Esta noite repleta... Este sonho, o negativo
Duma posse, dum arfar, a nudez e
Tua queda. E até a falta é um inverno
No qual revejo o meu futuro, a
Estranheza dum mistério. Não saber
O que é melhor, Alceu, a paz reconquistada
Da ausência ou o manter-se contemplado
Como uma luz a desmentir a noite
Eternizada no ficante... Alceu, não
sei me decidir por tantas dádivas...





III

Chego a perpetrar a noite. Está aqui
Esta cólera espelhada a qual eu chamo Deus.

... E ainda este universo todo sem meu eu.

Qual beleza vista por meu olho?
Olha-me a quimera igualmente.
Sabedor esta outra parte de mim
Que o mito é degrau no qual
Me recrearei. Olha-me a quimera
E não me desvenda... Sou outra
Cousa igual a um homem.

Chego a perpetrar a noite. Cremo... Alegro-me.





IV

Começarei o último deste antigo
Que não fui: a visitação das
Penumbras, as telhas da melancolia,
Um portar-se como louco
Nos aposentos do declínio. E é
Uma despedida satisfeita. Que é sempre
Uma promessa dum amante: cinismo
E risos falhos. Uma pouca
Tentativa de lirismo. Uma pouca
Demora em ser-me no caminho
Solitário da visitação.





V


Dançaram-me. Eu cingido em verde.
O quarto escuro na presença deste nome.
Atrás havia das imagens as ondas
Que levavam-me ao pai do turbilhão
E eu, desalentado, nada ordenava
À mercê deste lugar. O nome então
Se fez meu nume – esta mulher de
Veste pouca e carne que adentra
Esta parte mais escura aqui por dentro.
Vi até no seu rodopio o sexo acastanhado
Entreaberto e mudo entre as torres
- estas coxas - estes pelos que são
Véus. Dançara o corpo como eixo submetendo
O caos a uma unidade também caos.
Dum extremo ao outro eram gesticulações
Do silêncio numa cor branca num
Fundo escuro. Terpsícore.





VI

Eu tratar-te-ei o fogo por etapas neste canto
Onde as parcas nada vêem, onde a paz é um
Refletir da procela, onde um marinheiro
esposará as ninfas verdes de nereu. Tratar-te-ei
O fogo como outrora a carne de caça, água
Pura do estige, o sal do nosso corpo – o
repasto dos dias de trevas. Eu tratar-te-ei
O fogo, amiga, a revelar silêncios de ouro
ao cultuar a seiva, a putrefação, a palingenisia –
E após, deitados aos afetos das chamas
Os ossos dos nomes, aproximar-me de ti
E celebrar o fogo que nos resta
Ainda em abundância.





VII

“...Sobre o perigo das rochas, cabelos na
tormenta, irás dizer
adeus ao teu enigma.”
- Elýtis



Crepúsculo por dentro dos olhos,
É este o outono que me tem ensolarado
Os anos nos átrios dum instante não acabado.
Ó, a hora albente da clepsidra que quebrarei
Nesta altura de outrora, revelando
Ao negror sua potência. E ficará
Em tudo o meu rumor, as flores partidas,
Mas semeadas num perigo
Para revelar-me o adeus, o desvelar
Enigmas.





VIII

Sonhei infantes numa piscina,
Brincando com destroços de florestas
Pela noite. Eu era uma mulher
Entre elas, elas oferecendo-se
À minha maturidade repleta
De predestinação que não era ali.

Ontem, defronte ao sono, Nereu
Me aparecera, brincando-me no
Som corpos de ninfas, coroas de algas.

Bucólicas, ( XVIII )

No comment yet



 Aux soir, que je savais tu viens de t´amère journée, c´est que je m´etais, anodin, en attendant pour toi. Le vantail, alors, clairvoyant, gemissait la douleur de ta prochaine absence. Et je le n´entendais pas, dejá soufflé par la vison de ta beauté.
 Et, ainsi, il admonestait:
 - Entendez, que je te dis: il s´en faudra pour toi quelque jour et je m´aurai tu!!
 Aujourd´hui, à la fin de soir, quand l´heure triste cadence l´illusion de ta presence, encore reste-je, anodin, en attendant pour toi.
 Le vantail ne gemit plus sa plainte de prophète que je l´entend, mes yeus vide de ta beauté.
 Alors, je me reste em suppliant:
 - Gemis ta malediction de terrible préssage, qu´elle m´aurai venu quand se taire ton bruit d´augure!!

Bucólicas, ( XI )

No comment yet
No tempo em que nos amávamos.
O tênue traço venusto
Do teu colo, ventre almo,
Amoroso
Lufada glacial
Aflando o túmido seio úbere.
No baldaquim das horas cinzas
E o Édipo dos outomnos quedos.

E hoje é a balaustrada
E é o ascensor infrene...
Ler por entre os dísticos
D´um Ésquilo assim propheta
O eco d´um afeto assim estreme
E do cume em que estamos,
Alcantilado de penha imensa.
Ah! Será tão belo!...

E não temeremos as barbacãs dos tempos...

Anedocta de Plutarco

No comment yet


Eu não fôra triste assim... que a mim também acudiam as alegrias.

Haviam já obuses flamívomos que arrevessavam a substância incorpórea dos arriós e azuis... o empório era o armazém das curiosidades bélicas.

Os conclamava a paz... ao armistício...

A dinâmica das carruagens distendendo o paralelismo dos carris p´la testacidade figulina da herdade.

O pretérito de amentações saudosas da estância...

Bucólicas, ( XLVI )

No comment yet
I - Século compreensivo...

Quanto século compreensivo algum,
O luto das aliás plangente, sonho tanto
O sonhava flente, froixo o “Homo Novissimus”.

Inda à penna a tromba escrevendo:
Libelo d´uma última philosophia.

II - Hei, aí, esgotado, no furor da derradeira
Acometida: o póstremo alento de minha
Temeridade, morre-me a boca o confessá-lo -
N´obsecação obstinada do teu vulto erradio...

Morre-me a boca o confessá-lo -
Na contumácia solferina do meu pessimismo...

III - Acorda a carapeba assonante das pluviosidades...

(anthropomorphicamente, co´a rasoira impenitente
De nosso “Mal-Estar”) descompassado, tal
Fosse o fragor estrídulo dos estilamentos
Tautophônicos -

A apoteose emocional do medo!

IV - Mármor existindo a impassibilidade, co´o
Espírito Artístico. Das épocas sentimentais,
P´lo alheamento esculturado dos címelios euplásticos -

Tuburcinando, edaz, a potagem sápida dos antagonismos...

V - Pélago revel talando o tergo proceloso
Do abismo co´a voragem encapelada.
Lá-baixo, do escarcéu.
... e desdenho da tua felonia.

Linda extrema do oceano lírico
Amo a tua lassidão...

VI - “Antes, as fulvas madeixas da albente
Albufeire em que miro o semblante
Transfigurado, houvesse jamais tocado
Co´a lascívia dos dedos venais “.

- São tuas?...

Bucólicas, ( XLI )

No comment yet


 Imos ambos morrer!...


 Então a sorte misericórdia e nos conceda a fortuna n´um dia assim d´outomno, tanto que se nos dessore d´órbitas de violeta e d´horas de incêndio a mesta lacrimosidade porque nos víssemos à hialinidade d´um lago assim azul que o houvesse pintado um bruno phantasista, ansiando lhe atirassem os andrajos verdes d´uma esperança exul... Assim azul, scismando tua coma quem a houvesse, lá, ambreado dos olores que sentimos quase, que enervam quase - efundir do tênue toque da tua mão quando nos quer apanhar quase, tomar quase músicas que as ouvem apenas os teus e os meus olhos:

"... n´um arautismo de estrépito retumbante
um crescendo de claridade alvissareira."

"- O crepúsculo vai sangrando a hemoptises das
Vésperas sobre a urdidura promíscua da arrumação,
Que derrame hemorrágico das lacerações,
P´la alvura dos linhos nupciais,
No líbito eviscerante dos suicídios."

 ... Scismando a volúpia seda da tua tez, assim como a cingem nimbos de olores vítreos.

- E é uma surdina de aves na alameda!
Sobre loa, kyrie, ofertório algum
E lhe ouvimos o surdo psalmodiar.

 “A cristalinidade d´uma lágrima fez-lhe às faces maceradas a sinuosidade angulosa d´um arroio de doloras a que laivava de cruezas sanguíneas a congestão carmínea dos lábios, encenando impressionabilidades de adevões cruentos, difusa caudal de sangue à diafaneidade ciciante das águas”.

 ...Inda músicas, e as ouvem as tuas longas, lívidas mãos de cera, ardendo os alvos círios longos de tuas mãos.

 Outra música... e soará à prima hora rumores incertos d´uma sinfonia que ouvimos jamais... é tarde! D´esta hei apenas três tesoiros:
 ...esmeralda,
 topázio e turmalina.



 

Bucólicas, ( XXXIV )

No comment yet



(Ind´outro aforisma do meu Esteticismo)


Fúria fundibulária do seu carme...


Raucissonante co´a agonia estorcegada p´la boca eruptiva, ronflam, rugem, roncam, no aniquilamento plorabundo e deitam p´lo abismo o zimbro lastimoso da dor tantalizada.

E os vence, co´o aflato ululante das ecnefias, o vento p´lo alarido das virações e ruidoso.

Que vem, lá, palancíada aurorecendo, se vão remoçando n´um rejuvenescimento azul, da sujidade gris na medida tampouco se nos dá.


Ronflam, rugem, roncam lá-longe... lá-cima...



Bucólicas, ( XXXII )

No comment yet


(Primeiro Aforisma do meu Esteticismo)


Se foi co´a noite, p´la tarde agonizando, o lamento invocalizado das cousas emudeces quando, co´o caudal argentino das lágrimas, lá-alto, surdindo, pois, do mystério e origem esquiva, o disco de prata no abismo de trevas das incontadas, e são esferas, freqüentados os homens porque, a mais diligente.

Então, se foi a trautear n´um popysma, uma ária de olores...

O Plenilúnio fretenindo n´aerização hyemal das cores p´lo, adágio d´horas somnolentas... o arboreto...


Se foi co´a noute, p´la tarde agonizando...

Bucólicas, ( XXIV )

No comment yet

Eu quero que tu vivas sibilina flor do meu desejo
E inexprimível,
A expansão irreprimível d´uma força.
Tu, inolvidável, eterna chancela dos gozos e misérias?
Buscarás, debalde, o derradeiro mito da tua partida:
Serás, vive a dor da eternidade! - a maldição da tua própria beleza.
Sonho por mim a tua omnipresença em ti vivendo
Que és um calefrio ausente por um sonho de papaverina,
É também que avulta a tua dor.
Eu me estorço e caio a boca sôfrega dos mistérios emudeces.
Quando...

Bucólicas, ( XVI )

No comment yet
O meu alcácer é um tugúrio esboroado,
Quiçá a sanha furibunda dos milenários,
E lhe aflija talvez da noute a tule
D´umbrores o aspecto charro d´uma choça.

Deitou p´la platitude, se ia rojar
D´este muros as mãos d´um sarrafaçal
Da vida co´a resignação d´um penitente,
Fulgindo, seu nome p´las páginas do Il´Lilin...

O bacilo impiedoso das idades
Deixou à posteridade nevrotada
O flagrante imagético das saudades...

Os muros dizem assim dos que se foram...
Co´o vasconço sibilino do reboco carunchoso
P´la lauta solitude d´esta herdade!...

Bucólicas, ( XV )

No comment yet
Quando a treva deixa p´lo abandono
Lentamente se vai aderindo ao silêncio
Recordativo das horas vespertinas...
Parietal de minha alcova fria...

Deitando uma tristeza acerba
De ausência, penso então ouvir
O tiple claro da tua linda voz
De seda modulando uma endeixa.

A nostalgia empalamada do exílio...
Fusinando a estreiteza ulcerosa
Dos muros p´lo silêncio d´hora amena...

- A saudade, à noute, inda é mais pungente!...
É, então, que me vou deitar, ó nume
Do amor, à suave evocação dos teus nocturnos!...

Bucólicas, ( XIV )

No comment yet
Aquel´hora da matina, quando o teu vulto
Fugidio inda se exilava no degredo astral
Do sonho, eu me ficava a velar-te,
Ò flor tentadora da luxúria...

Como a ver, d´alguém a quem se ama,
Fugir-se-nos a grácil máscara de sorrisos,
Delir-se-nos a face amada d´alguém
P´la penumbra atassalhante do olvido.

E os teus olhos, pequeninos, rutilando
Que já os não posso divisar assim
Co´o esplendor opaco d´um hiálito,

P´las distâncias a perderem-se fugitivos...
Lembram já duas estrelas exiladas
P´la solidão latitudinária dos espaços...

Mater Amatoris

No comment yet
À minha Mãe.




Quando a morte, ao derradeiro canto
Que eu houvesse cantar ao mundo,
Se me vier célere silenciar,
Sois vós que as mãos e faces
E fronte me havíeis beijar
E orvalhar
Co´o rocio de lágrimas do teu pranto.

E os tempos, a mim, que fora enfim
De lama infame monturo,
Hão então verberar:
“Maldito! Se vá este biltre abrigar
À infâmia paternal de Satanás...”
E ao mundo odiento afrontando,
Vós é que, símplice, lhes ireis arrostando
Na defesa imerecida que me farás:

“- Maleficente... meu filho não fôra assim!”.

Res Gestae

No comment yet


A minha Nau vogando quietude marulhosa do mar, ringir roufenho de ferros sapremados... p´la poitação ruidosa das arribações, celebradas no peã barregante da matolagem acoroçoada, ebrifestiva.
Bulha de gorjas raucíssonas despulmonando himno de aclamação vitoriosa, loa de corações ovantes tartamudeada p´la ingresia tonitroante dos triunphos...
Lá-baixo a hiléia cerebrina das legendas, e troviscados.
Estrepitosamente, co´a exartrema entrechada das mastreações.
Carpidas na oblectação temulenta das beberagens.
... o alarma admonitório da próxima partida.

Portrait

No comment yet



Ao meu Irmão
Daniel Welbert.






Estagnação de ar estival
Toldando a estrídula intestinação dos arruamentos;
Surdo tatalar d´archaboiços entrechocados
Na deambulação vadia dos Boulevards;
Calhaus de antonomásias epitásticas
Atiradas à camaradagem pulha,
Na coprolalia das Brasseries;
Recatos ruborizantes de pudicícia susceptibilizada
P´la corrimaça frascária
Da puerícia excitada;

- 247

Maria, tua seda voz de querubim,
Colgando o ar d´harmonias celestiais,
É um panapaná de falenas eterais...
Tenuíssima música dessorando sobre mim!...
Na urbe, a sarapieira promíscua das defecações comercias, alcatifando a gorla estreita das cales, à visualidade da retina senciente põe ilusionismos de “Crossword”...

Dias de Chuva

2 comments



... A gare toda emudece co´a partida dos comboios. Azul... Toillete olorosa de moça brejeira. Todos a conhecem. Apenas: os gárrulos olhos úvidos, melanópicos, que a elegância “chic”, o maneirismo utilitário ensombreceu. Dias de chuva. Esta é muito bombástica... Exige demasiada fé. Hoje: um número ínfimo... Não é, pois, uma questão de credulidade apenas. Daí concluo: carecemos, sobretudo, o gozo. Basta!
Ela tem invulgar beleza e gracilidade... Deixa-nos em leve e suave somno admirativo. ”Consoadas e guloseimas!... Balas! Balas!...”.
Ele olhou-me solícito, servil. Curvei-me, perscrutando-lhe o alforje pando co´a zamburrada, atestado co´a tuia de cacaréus. “Balas!”, não mais o atendi, displicente.
O Maciel sabia-me refractário a taramelice pulha da repartição. O Football... Eu já o adivinhava: Ramos sob a zerbada ululante. Quiçá vendessem amendoins!
“- Não Senhor. O Sr no vagão contíguo os poderá comprar”, retorquiu-me polidamente. “Goma encandilhada!”.
“- Estação Bonsucesso! Estação Bonsucesso!...”, inda o salseiro plorabundo.

*
* *

A canícula bonançosa dos estios ardia, rútila e franca, lá-fora. Ele perscrutou, com esgares estudados d´atentiva despiciente, a nudez aboletada do “Wagon”. Cerrou-se o batente, estrugidor, sob o ósculo panthográfico das portas hemioclusivas. Refestelou-se, anchilosado de fadiga, junto à blindagem aluída d´um painel electromecânico. Lá-fora a evidência metereológica inverossímil d´um dia estival, dir-se-ia, primaveril. “E o mascate?”, inquiriu consigo. Ponderou que far-se-ia mascate se lhe sobreviesse a má fortuna. Hesitou no acerto do que deveria chatinar. “Amendoins!”, isto acudia-lhe a retentiva co´a impertinência d´um remorso.
O coro dos escanos, a passo e passo, ocupava-se co´a fadiga repimpada d´alguma cachimônia toscanejante. “Três!”, atalhou, farto de enumerar-lhes inda que mal o houvesse ensaiado. É verdade que, aí, quiçá, se contassem quatro, mesmo dous... Mas não carecia contá-los. Não os contou portanto. Enfezou na convicção inabalável de que, aí, se contavam três apenas. Súbito compreendeu que deixara empós de si um “Wagon” em que se aboletava uma vintena, quiçá uma trintena de gentes que convalesciam das canseiras diuturnas. “É isto!”, atalhou, célere, pondo termo ao runimol de insípidas questões que isto suscitava. Presto uma tosse catarrenta de tísica vibrou no ar o cavernoso cantochão de seu funesto segredo. “Sim, três!”, concluiu afinal. O comboio voraginava os espaços co´a fúria fundibulária de su´alma de hulha. Cada vez estertorava no epileptismo vasquejante, no tetanismo assoberbante que o dínamo aceso das máchinas lhe favorecia. Inda uma vez ele divulgou, lá-fora, uma nesga luminosa dos céus. Meditou: Como se há de isto compreender? Inda a momentos todo se encasmurrava os céus p´lo bulcão arrevesado de basta borrasca e. já, lá está diáphano na transparência azul d´um luminoso dia de estio. Ocorreu-lhe que muito o gostaria conhecer os mysteriosos desígnios que presidem a alternativa dos dias estivais p´la enfiada toda dos dias tempestuosos. Um mystério... e outro mystério.
Esperava p´lo machatin das consoadas que se compram a vinténs p´lo comboio. O seu amendoim...Pensou que isto lhe fosse um estranho e estrídulo estribilho a ecoar, monótono, p´las estrophes da viagem que entretinha. Compôs a ode:

Fuma, celerígrado, o comboio
No transe obstinado de se ir.
5:15 h. no gare do Arroio
A gente toda a ir e vir.

Amendoins!
Foge-lhe o verso, escapa-lhe a rima. A tosse reboou raucíssona como um presságio mau. Ele a ouvia clara e distinta, mas não saberia dizer d´onde ao certo procedia, qual, dentre os infelizes que, aí, toscanejavam, a levava hético. Dissipou a sombra d´esta tola arenga para notar, e supunha fazê-lo p´la prima vez, o polícromo zingamocho que, ledo, lhe sorria à rotação tresvariada de suas pétalas zonadas. Ele estava suspenso no fundo do “Wagon” e sua umbrátil presença fôra diligentemente galivada p´la alacridade rutilante da lux estival. Ficou fascinado! Sumariou as razões porque a alguém ocorreria a idéia de, ali, fixar e deixar, a admiração palerma dos ranchos escadelecentes, o mimo versicolor d´uma tão bonita ventarola. Quis erguer-se para o ir divisar com minúcia e atilamento. Mas lhe não pareceu pertinente. Alvitrou que isto muito se afiguraria burlesco aos anônymos passageiros que, aí, escarranchavam-se exaustos. Sua discrição mesma, a contenção característica do seu ser se lhe antolhava pertinaz.

*
* *

“- Estação Bonsucesso!... Estação Bonsucesso!”, alardeou inda uma vez o bilheteiro co´a fleugma madrana de sua atilada idoneidade.
Ele nada podia arrazoar. Duas estações deixara empós a partida na de Bonsucesso! Quis certificar-se. Perscrutou a plataforma atinando co´o reclamo flagrante que o jirau, aí, ostentava: “Estação Bonsucesso”. Estava convencido. Mas onde o ajuntamento palavroso dos ranchos na expectativa das partidas? Onde a fauna exótica dos petizes engraxates? Onde o tropel dos mascates, bufarinhentos e aparelhados para o repto diurnal da existência?
Ele nada podia arrazoar. Se não podia dissuadir da evidência irrecusável que, ubíquo, o reclamo alardeava, não! Todavia podia tampouco se esquivar a flagrante estupefacção em que se abismava. Quis certificar-se da progne claridade que sabia agora esplender lá-fora: Ei-la que, lá, estava. Hesitava quanto ao modo porque se houvesse neste momento. A presença dos outros passageiros o intimidava e o chamava a razão. Receava afigurar-se-lhes tolo, interpelando-os co´a sua impertinência. Turbou-se co´o assombro em que estatelaram as cousas como que hipostasiadas de sua ordinária nugacidade. Confabulou consigo no asserto solerte de, não obstante a maçada dos dias infindos, haver-se-lhes co´a sensaboria. Ele apenas agora o adivinhava. E ponderava: “Quiçá nós, os homens, arrematamos a therapêutica dos sustos e constrangimentos co´a disciplina fascinadora da réles existência...” Mesmo esta ilação, com que atalhou a arribação penipotente das idéias, pareceu-lhe fora de seus gonzos consuetos. Sacudiu os últimos andrajos d´esta vã cerebração para atender ao imprevisto do zingamocho que seu olhar perscrutador de novo assestara.

*
* *

Colimou co´a atentiva ancípte na fuga trambecante das paralelas que os escanos prolongavam ´té o fundo do “Wagon”. Dous. “Dous?”... Olhou em derredor de si. Estava inquirindo os espaços, demandando a presença d´alguém. Atinou co´o zingamocho: o ponto de fuga. Ei-lo, estático, já. Presto ergueu-se do chão. A pouco e pouco se lhe ia esclarecendo o assombro a que sucumbira. O seu olhar atônito inda a pouco fitava, maníaco, a paleta delirante do gira-vento na gênese phenomenal de todos os desvarios da cor. O seu espírito estesíaco resfriara-se no parvo estremecimento admirativo dos que testemunham um prodígio. Súbito o zingamocho a mais e mais revoluteava na vesânia tresvariante de seu fuso, pressago, sinistro no alarido estrugidor d´uma vertiginosa aceleração. Ele inquiria da proverbial impassibilidade em que enfezaram, lorpas, nos escanos calafetados do coro, os quatro... “-Quatro!”, consigo contava, impotente para o preciso acerto enumerativo. O zingamocho, então, estalou n´um piparote versicolorido de fosfenos luciluzentes e senóides de harmonias cavas e soturnas. Cem mil miríades d´astros rutilantes turbilhonavam, parabólicos, n´anthese circinada d´outras tantas miríades de zingamochos errinos, estornicando inda mais falanges d´outros gira-ventos belizes, rodopiantes, em catadupas vertiginosas, em aludes adejantes, assomando p´la abcisa helicoidal do seu embevecimento... Foi então que o atirou ao chão o avanço implacável do nuvrejão tempestuoso dos zingamochos e d´onde apenas agora emergia, aturdido, no bonançoso recalmão das borrascas transitórias e contingentes.
Sim! Apenas agora se lhe ia esclarecendo e galivando o que se lhe havia adergado...

*
* *

Não obstante a impertinência de sua polidez lhe não respondia o homem.
Ele havia thiranizado no aresto irrevogável de lhes falar, aos três. “-Três!”, interjectava. Agora tudo lhe parecia demasiado inverossímil. Julgou que, posto não se havia inda detido na consciente operação de os enumerar, a seus companheiros de viagem, afigurava-se-lhe indeterminado o seu número, variável, mesmo indecidível. Consultou-o de novo: “-Sim, três!”.
Não obstante a impertinência de sua polidez lhe não respondia o homem.
Compreendia, já, que estiveram todo o tempo submersos em suave e silente modorra, que nada viram e que mesmo a alternativa anphigúrica em que se metamorphoseava o dia por sobre nossas cabeças lhes era indiferente. Havia-lhe de responder: “-Não!... Queira perdoar-me, cavalheiro. Receio que nada tenha visto”. “... porque dormia, sim, obrigado!”, atalhou consigo. Perscrutou, com vagar, o assento em que se repimpava o segundo passageiro, este guardando melhores cuidados no asseio domingueiro de seu vistoso fato cosido a novo. Inda a pouco o vira escadelescendo em imperturbável somno e, já, vigilante e esperto n´ocelação contemplativa do zingamocho. Ele não o havia atinado. O gira-vento agora bafejava o hálito ebrifestivo de su´alma solerte p´la máscara de sorrisos d´aquele homem. Quiçá ele o houvesse colhido ao muro do comboio. Pouco importa. Ele o possuía, o contemplava, absorto e enlevado.
“- Tu vês a luz?”, inquiriu-o o homem.
Ele repelia de si, co´o laconismo acerbo de seu renuído, a intimidade com que aquele homem o constrangia a responder. Decerto vira, a pouco, o panapaná feérico em que se convertera a circunferência polícroma do zingamocho. Estatelara-se d´assombro co´a ter encontrado, empós tê-la deixado, estação de Bonsucesso. Sim! Mas via luz alguma vertendo-se do gira-vento. O homem neste momento submergia no sonho nematóide de su´alma embevecida. Ele todo absorvia-se no alumbramento fascinador que sua imaginativa escandescida supunha olor. O gira-vento debuxava-se, neorâmico, p´la elíptica circinada de seu embevecimento. Era a alma d´uma flor dos trópicos, a negacidade proterva d´uma abstração do Belo. Ele turbou-se co´a sýnthese diorâmica que aquele homem parecia estresir mesmo ao existir phenomênico do zingamocho. Encalistrado, tornou ao assento em que ´té a momentos estivera a iluminar o nastro animathográphico das nugacidades diuturnas. A um gesto thaumatúrgico de seu espírito fatigado toda a sensaboria dos episódios ordinários em que declinara, ablativo, o seu existir, desenovelava-se incontinente da meada obscura das amentações: “Minha esposa, Sérgio... Ela sobre o desalinho amimalhante do tálamo. Um quadro de Veermer... A sýnthese das cores... É isto! As dissensões de escola... Ele tem razão: são instinctos perversos que os agitam e averrumam. Sentença, período... o real é a metháphora do olhar... quiçá mo compreendessem... Sócrates fluminense. Uns comediantes... a gare toda emudece co´a partida dos comboios. Azul... Toillete olorosa de moça brejeira. Todos a conhecem. Apenas: os gárrulos olhos úvidos, melanópicos, que a elegância” chic “, o maneirismo utilitário ensombreceu. Dias de chuva. Esta é muito bombástica... Exige demasiada fé. Hoje: um número ínfimo... Não é, pois, uma questão de credulidade apenas. Daí concluo: carecemos, sobretudo, o gozo. Basta!
Ela tem invulgar beleza e gracilidade... Deixa-nos em leve e suave somno admirativo. ”Consoadas e guloseimas!... Balas! Balas!...”.
Ele olhou-me solícito, servil. Curvei-me, perscrutando-lhe o alforje pando co´a zamburrada, atestado co´a tuia de cacaréus. “Balas!”, não mais o atendi, displicente.
O Maciel sabia-me refractário a taramelice pulha da repartição. O Football... Eu já o adivinhava: Ramos sob a zerbada ululante. Quiçá vendessem amendoins!
“- Não Senhor O Sr no vagão contíguo os poderá comprar”, retorquiu-me polidamente. “Goma encandilhada!”.
“- Estação Bonsucesso! Estação Bonsucesso!...”, inda o salseiro plorabundo.
*
* *